Pensamentos trazidos pela chuva


Eu estava lá, perdida em meio a agitação do meu dia. Um correria fora do meu controle, um cansaço que consumia minhas pernas e aquele salto 15 do tipo agulha que só aumentava o sofrimento, mas ao menos valorizava as minhas curvas, se é que vocês me entendem. Lá fora caía uma tempestade que eu pude perceber pelo som dos trovões que ecoavam nas paredes do prédio. Tudo o que eu mais queria era estar em casa, mais precisamente no aconchego da minha caminha, mas naquele momento, o trabalho e a chuva me impediam de realizar essa mordomia. As horas se passavam e eu ainda estava lá.

Depois de tanto trabalho e do fim do expediente de alguns colegas, me vi sentada curvada na frente do computador, com os pés descalços e uma fina garoa batendo na janela. Já passava das oito, mas eu ainda esta ali. Estava tão exausta e farta de todos aqueles documentos que comecei a me perguntar  que eu havia feito pra estar naquele lugar. Em que momento do caminho eu escolhi aquela vida. Não que eu não fosse feliz ou me arrependesse das minhas escolhas, mas naquele dia tudo se tornou tão vago. Eu só queria viver e não ter que ficar lendo aqueles infindáveis processos.

Me lembrei de um certo ex namorado, o culpado por eu ter entrado na faculdade de direito e então o possível culpado daqueles sentimentos atordoadores. Me lembro que na época foi ele quem pagou a minha inscrição e a minha matrícula, acho que ele estava querendo que eu me tornasse uma pessoa admirável. Bom, pelo menos alguma coisa boa ele fez antes de terminar comigo e orgulhosamente sumir da minha vida. E acho que ele sentiria orgulho da mulher que sou hoje.

Depois do final daquele relacionamento me fechei interiormente e foquei apenas nos estudos. A faculdade e o trabalho consumiam todo o meu tempo, e pensar em relacionamento sério com alguém, era a última coisa que eu queria. Anos depois, agora formada e com uma brilhante carreira em construção, aqui estou eu. Ainda estou sozinha, bom, prefiro dizer que não encontrei o cara certo e que meus requisitos são muito específicos.

Vendo aquela chuva fininha batendo na janela, minha mesa cheia de processos e a dor insistente batendo nas pernas, chego a questionar se aquele cara fez algo bom por mim. Não que eu não ame advogar, mas será que eu poderia ter escolhido outro caminho que me permitiria estar neste exato momento deitada na minha caminha ao lado de um homem maravilhoso dizendo que me ama?! Tem coisas na vida que a gente nunca vai saber, e uma delas é se o caminho que a gente escolhe realmente é o caminho que vai nos fazer feliz.

Nesse momento um forte trovão sinalizou que a chuva engrossaria e me fez lembrar que ainda faltam 25 processos pra analisar. E cá estou eu, procurando um pouquinho de paixão pra poder voltar ao trabalho. Queria mesmo é que a luz acabasse, assim eu poderia ir pra casa e dar a desculpa da luz pro meu chefe no dia seguinte. Pura ilusão.




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